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239/2019 EM TRÂNSITO

Em Trânsito é um absurdo de bom, que isso fique bem claro desde o começo dessa modesta resenha.

O novo filme do enfant terrible Christian Petzold conta uma história de guerra, baseada em um livro de 1944 e transposta para Marselha na França de hoje em dia onde refugiados europeus aguardam em trânsito navios para fugirem da Europa fascista.

O filme nos mostra Georg, um alemão na França que vem tentando fugir da polícia do mal e chega em Marselha com 2 funções dadas pelos companheiros da resistência.

Primeiro ele deve levar um amigo para sua família, que está muito ferido e que embarca com ele escondido em um trem.

Georg tem em mãos também os documentos de um famoso escritor alemão que foi convidado pelo governo mexicano para morar lá, com passagens, vistos e tudo para que ele se vá com sua esposa.

Ao chegar em Marselha, Georg percebe que seu companheiro de viagem não resistiu e morreu no trem; ele consegue fugir da polícia, procura a família onde se aproxima do filho e da esposa africana que é surda.

Em paralelo ele vai até o consulado francês entregar os papéis do escritor quando vendo a agitação e desespero de todos que querem fugir e onde ouve notícias de que a chegada dos fascistas ao sul da França é iminente, Georg resolve assumir a identidade do escritor e ir embora de vez para o outro lado do Atlântico.

O que ele não esperava é que iria se encantar por uma mulher misteriosa que não para de cruzar seu caminho na Marselha desesperada. E que essa mulher é a esposa do escritor que Georg agora diz ser.

Petzold, mais uma vez, foca sua história num mundo em guerra, em conflito, onde as pessoas procuram refúgio ou pior, procuram fugir em desespero.

E a gente sabe que o desespero é o pai da burrada.

Em Trânsito conta uma história que se passa nos dias de hoje mas que poderia se passar na 2a Guerra, como foi escrita para tal ou em qualquer outro período de conflito.

Em Trânsito é estranho, bem estranho.

Petzold consegue com a direção de arte e fotografia do filme que a história tenha um tom quase de fantasia, de ficção científica, de tão cru e frio que a cidade portuária francesa parece.

E pior que a cidade, as personagens que por lá sobrevivem também são frias como devem ser as pessoas em trânsito, ainda mais fugindo do desespero fascista.

A única demonstração de afeto que Georg recebe é do filho do amigo que morreu no trem. E mesmo assim ela dura pouco porque logo o menino fica sabendo que como seu pai que o abandonou, Georg também está lá só de passagem.

A mãe africana surda do menino é uma pequena personagem que diz muito sobre o filme em suas atitudes, assim como algumas outras pequenas personagens que vão aparecendo pelo filme, personagens sem razão em princípio mas que vemos que não estão lá por acaso.

Georg é um dos personagens mais legais de 2019, um cara pragmático o suficiente para sobreviver a esse período de guerra e perseguição, mas com um lado humanista enorme, para contrabalançar.

Petzold se mostra cada vez mais como o diretor a ser acompanhado. Seus filmes são sempre diferentes o suficiente para criarem universos quase distópicos, apesar de serem completamente reais e possíveis.

Em Trânsito é um dos filmes queridinhos de festivais desde 2018 e muito de seu sucesso se deve a Franz Rogowski (de Happy End), o ator alemão que vive brilhantemente Georg e a Paula Beer (de Frantz), que vive a desesperada esposa do escritor, vivendo o casal mais estranho de 2019.

Prepare-se pra ser arrebatado.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

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